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quarta-feira, 16 de março de 2016

Onde o Rosário aparece em “O Senhor dos Anéis”


Dom Joseph Bernard Marie Granziano, OP*

Em O Senhor dos Anéis , a Senhora Galadriel dá a Frodo um presente antes de sua partida de Lothlórien: um frasco, que de alguma forma está preenchido com a Luz de Eärendil, a estrela que serve como uma espécie de Estrela Polar ou Estrela da Manhã para orientar os Eldar (elfos) para as Terras Imortais. Quando Galadriel dá o frasco a Frodo ela diz seu propósito com este presente: "Que seja uma luz para você em lugares escuros  quando todas as outras luzes se apagarem".  

Frodo o usa pela primeira vez o frasco como uma luz no covil de Laracna, uma caverna na qual "sentia-se uma maldade tão intensa que Frodo cambaleou" (O Senhor dos Anéis , IV.9). Quando ele levanta o frasco no ar, exclama: "Aiya Eärendil Elenion Ancalima! ", que se traduz em "Salve Eärendil, a mais brilhante das estrelas!" Com suas palavras a luz brilhou mais forte. Mais tarde, quando Sam usa o frasco, ele grita:




O Elbereth Gilthoniel
o menel palan-diriel,
le nallon sí di'nguruthos!
A nin tiro, Fanuilos!

Oh Elbereth Estrela-Cintilante,
do alto firmamento olhando longe,
a ti eu clamo em meio a esse horror!
Olhar benevolente sobre mim, Senhora Sempre-pura! "

Para aqueles que não conhecem alguns termos da mitologia de Tolkien, Elbereth (ou Varda) é a Rainha das Estrelas. Com as palavras de Sam, a luz "ardeu como uma estrela saltando do firmamento em direção ao escuro como uma luz intolerável."

Um presente da Senhora Galadriel, esta é uma fonte de luz vinda através da oração, o frasco é para nós uma imagem do Rosário. A Virgem Maria, a mais bela de todas as mulheres, nos deu o Rosário como uma luz para os lugares escuros. Na oração do Rosário, clamamos a Maria, a Estrela da Manhã, para que possa guiar-nos para o Céu junto de seu Filho. Quando sussurramos nossos  Aves , pedimos a Rainha do Céu, a Mulher vestida de estrelas, por seu auxílio nos tempos mais sombrios da vida. Também a oração de Sam para Elbereth é semelhante à Salve Rainha, que oramos  no término do Rosário: "Salve Rainha ... a vós bradamos ... neste vale de lágrimas! Advogada nossa, estes olhos misericordiosos a nós volveis... oh clemente, oh piedosa..."  

Podemos identificar três efeitos do frasco que também se aplicam ao Rosário. Em primeiro lugar, o frasco fornece luz para iluminar o caminho dos hobbits para que não tropecem: Ao rezar o Rosário nós crescemos na graça e podemos assim compreender a melhor nossos caminhos. Temos fé que ao pedir a Deus através da poderosa intercessão da Mãe de Deus Ele nos traz para perto de Si e aí está toda nossa alegria. 

Em segundo lugar, o frasco dá a esperança aos hobbits, apesar das provações que enfrentam a Luz de Eärendil lembra-os das grandes histórias passadas de sobre como outros já triunfaram sobre o mal, e como acima de tudo, até da escuridão de Mordor, ainda há beleza, bondade e verdade. O Rosário de Maria é uma fonte de esperança para nós, pois, meditando sobre a vida de Cristo e caminhando com Ele chegamos a compreender ainda mais que a morte não é o fim da vida, que Cristo venceu a morte e que Ele prometeu o Seu Reino àqueles que O seguem. O Rosário é o modo humilde de Maria nos levar por este mundo, mantendo-nos cheios de esperança na plenitude da vida eterna que há por vir. 

Em terceiro lugar, o frasco é um terror para os maus. Laracna, que é um antigo mal em forma de aranha põe-se em fuga ao ver a luz do frasco brilhando. Da mesma forma, o Santo Rosário é um terror para demônios, uma arma na nossa luta contra os nossos próprios vícios e contra os males do mundo. Para provar  basta ter um olhar mais atento sobre a vida dos  santos.
Mas o  Rosário  em si é muito mais poderoso que o frasco. É uma oração que pode ser uma petição, uma meditação, uma oração de ação de graças, uma oração de louvor, mesmo uma oração de reparação pelos pecados. Há uma coisa, porém, que o Rosário não é: uma solução imediata para todos os nossos problemas. Na oração de encerramento do Rosário oramos para que possamos imitar o que os mistérios contêm e consigamos o que prometem. É fácil esquecer-se do mistério anterior quando se reza o próximo, mas eles são uma continuação do caminho. Devemos imitar o que os mistérios contêm, todos os mistérios, desde a Anunciação, através da Crucificação à Ressurreição e além. O Rosário não tira a dor desta vida; em vez disso, nos ajuda a ver o nosso sofrimento na Cruz de Cristo.. Então, alegremo-nos, sabendo com uma viva esperança de que a Virgem Maria nos levará, através de tudo o que há por vir, até  seu Filho e Nosso Senhor, Jesus Cristo.
 * Dom Joseph Bernard Marie Granziano é frade da Ordem dos Pregadores, os Dominicanos, da Província de St. Joseph, Estados Unidos.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O exercício do dom de si (Práticas concretas para a busca da santidade na vida cotidiana)

O exercício do dom de si 


Pe. Joseph Schrijvers

Quando a alma de boa vontade se doou a Deus, estão lançados os alicerces do seu edifício espiritual. Só falta construir, isto é, renovar constantemente essa disposição. É o exercício do dom de si, que se pratica com a mesma simplicidade, com a mesma serena mansidão com que a alma interiormente livre cumpre seus deveres.

Logo pela manhã, ao despertar, a alma eleva-se a Deus, oferece-lhe todo o seu ser e pede-Lhe que disponha dela como lhe aprouver. Este ato substitui longas orações. É uma aceitação amorosa de tudo o que vier a acontecer no dia, seja doce ou amargo, agradável ou penoso. É uma alegre disposição de tudo fazer e sofrer para agradar a Deus.
A alma esforça-se por manter-se tranquilamente nessa disposição essencial e repete de tempos em tempos o seu oferecimento. Assim recolhida em Deus, entrega-se à oração e ao trabalho segundo as exigências de seu estado.
Durante seus afazeres, permanece senhora de si, agindo sem frouxidão e sem precipitação, não se deixando dominar pelo frenesi de acabar de pressa, nem pela vontade de conquistar estima alheia, nem pelo prazer que encontra na sua ocupação.

Já não se pertence mais, é inteiramente do seu Senhor, também não pertence aos outros, nem se deixa escravizar pelo seu trabalho, pois este não é um fim, mas apenas um meio. Inicia as suas ocupações sem paixão, continua-as com toda a paz, termina-as sem pressas, sabendo que, depois desse trabalho outros virão. Para acalmar a sua impaciência, repete muitas vezes: “Enquanto executo esta tarefa, não devo cumprir outra; enquanto estiver aqui pela vontade de Deus, não sou obrigado a estar em outro lugar.”

Inteiramente senhora de si, executa de coração livre os seus deveres, uns após os outros, e esta liberdade interior permite-lhe empreender com mente clara a atenção contínua, sem fatiga ou precipitação, sem desânimo ou preguiça.

Os homens verdadeiramente ativos são os que menos o aparentam. Os agitados, os apressados, não fazem quase nada. Começam, mas não acabam. Após o trabalho, ficam com o coração inquieto, o espírito oprimido e incapaz de pensar em Deus. A alma simples, pelo contrário, imita Deus, parece sempre em repouso e está sempre ativo.

Assim, a alma prossegue em seus trabalhos diários armada do seu ato de doação. Repete-o em cada ação que realiza, a cada dificuldade que surge, a cada sofrimento que lhe sobrevém, a cada alegria ou desgosto que experimenta. Tem o seu modo próprio de resistir as tentações e de afastar as distrações. Mal se apresentam, não as afugenta diretamente, como se fossem moscas, mas despreza-as contentando-se em repetir: “Senhor, auxiliai-me.” Um gesto de amor, eis a sua resposta às sugestões do demônio. Aliás, não será tentada por muito tempo: o inimigo sabe que cada tentação provoca um novo impulso do coração de Jesus.
Da mesma forma, acolhe por um simples ato de amor as contrariedades, as cruzes, os sofrimentos de cada dia. Por mais opressivos que sejam, os contratempos nada mais fazem do que provocar atos de amor.

O descanso não interrompe o seu relacionamento com Deus. Distrai-se com o coração livre, pois sabe que Deus quer que descanse. Nunca se abandona a uma alegria vã e desmedida. Tudo nela é moderado. Diverte-se como a criança sob o olhar materno. Só recorda-se de que Deus está nela, que a vê e que ama.

Toma as refeições com inteira liberdade de espírito, sem se preocupar com a qualidade do cardápio. Porventura não lhe vem tudo das mãos de Deus? Só dá atenção a esse bom Pai que ama ternamente, e não se preocupa com o resto.

Enfim, chegada a noite e concluídos os trabalhos do dia, enquanto adormece, ainda murmura uma palavra de abandono, mais comovido, mais profundo, se possível, para reparar as faltas cometidas e suprir as omissões do dia. Depois adormece em paz, sob o olhar do seu Senhor, que vela por ela.

Pe. Joseph Schrijvers – retirado do livro “O dom de si – vida de abandono em Deus”


P.S.: O sub-título entre parênteses foi acrescentado na edição feita pelo blog. Ajude a compartilhar, leve esta profunda e eficaz mensagem para mais pessoas, os menores atos feitos com boa vontade geram frutos gigantescos para a maior Glória de Deus.

terça-feira, 25 de março de 2014

O soldado convertido por Nossa Senhora



Há uma sequência de cenas no filme A Paixão de Cristo onde podemos ver belamente o início da conversão de um soldado após assistir o sofrimento de Nossa Senhora junto ao seu Filho no caminho para o Calvário, e nesta postagem tentaremos elencar as cenas junto com uma reflexão a respeito sobre como toda conversão começa através da intercessão de Nossa Senhora.

Como se sabe, o diretor Mel Gibson baseou-se muito nas revelações particulares feitas a Beata Anna Catarina Emmerich [1] para montar as cenas do filme, no qual foram reveladas a ela realidades da Paixão de Nosso Senhor, digo que li apenas alguns pequenos trechos dos relatos dela, e não sabemos – mesmo que por revelação particular - se esta sequência aconteceu realmente, mas creio que ela foi pelo menos pensada pelo diretor do filme para que tivesse esse efeito.

Então, é uma sequência de 3 cenas cheias de significado, e envolve o encontro de Nossa Senhora e um soldado romano, que no filme é chamado no pelo nome de Cassius, e que vemos no fim ser aquele que perfurará com uma lança o lado de Nosso Senhor, e se converterá depois de ver jorrar sangue e água do corpo de Cristo, no filme não há a pronúncia dos tais dizeres mas ligando a cena aos relatos das Sagradas Escrituras sabemos que é aquele soldado que diz: “Verdadeiramente este Homem era Filho de Deus” (cf. Mt 27,54). Nos relatos da Beata Anna Catarina Emmerich ele é chamado de Cassius,  mas a tradição costumou-o chamar de Longino ou Longinus (Nome derivado do grego “longche” que significa "uma lança"), daí derivou-se que seu nome chegasse até nós na sua “versão portuguesa” como São Longuinho. [2]

Prosseguindo, o primeiro encontro entre o soldado Cassius e Nossa Senhora se dá durante a Via Dolorosa de Nosso Senhor, (vamos chamá-lo aqui de Cassius para um melhor entendimento), Nossa Senhora encontra Jesus e depois de um curto tempo juntos os soldados vêm e os separam e fazem com que Jesus siga o caminho, então Cassius olha de um modo estupefato e muito assustado para aquela cena, e em seguida pergunta a outro soldado:
-- Quem é Ela? O soldado responde:
-- É a Mãe do Galileu.
A cena prossegue e o olhar estupefato de Cassius continua, como se lêssemos aquela pergunta ressoando em sua mente: -- Quem é Ela? Quem é Esta Mulher?



Não há como não pensar na passagem dos Cânticos dos Cânticos que sempre é atribuída profeticamente a Nossa Senhora: “Quem é Esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, temível como um exército em ordem de batalha...?” (Ct 6,10), num instante o soldado que pertencia ao exército mais poderoso do mundo se vê pequeno e fraco perto da magnitude daquela cena, do amor tão grande daquela Mãe pelo Filho, e do Filho pela Mãe, e deve ter começado a se perguntar? “O que há de tão grande neste Galileu? Quem é Este?”

As cenas se desenrolam e há um novo encontro, agora já aos pés da Cruz, Nossa Senhora acompanhada de São João e Santa Maria Madalena se aproximam de Nosso Senhor, é o momento onde Jesus deixaria Nossa Senhora como Mãe de todos nós na pessoa de São João, e parece que Cassius tem a função de guardar o local para que ninguém se aproximasse da Cruz. Então os 3 se aproximam e Cassius entra na frente, como que para impedir, mas visivelmente com o corpo estremecido, com um olhar confuso, e por dentro com o coração já tocado pela piedade de ver a dor e o amor de Mãe e Filho, deixa-os passar... E deve ter-se perguntado: “Quem é Esta que tem força para ficar de pé vendo tamanha dor de um filho? Quem é Este Homem?”



O terceiro encontro com Nossa Senhora é novamente aos pés da Cruz, tudo já está consumado, Nosso Senhor está morto, e logo em seguida acontece um terremoto e os soldados romanos correm assustados e sem rumo, começam a quebrar as pernas dos outros crucificados para morram mais rápido, é entregue um pedaço de madeira a Cassius para que quebre as pernas de Jesus, ele olha para Nossa Senhora antes, e não tem coragem de fazê-lo, e dá um grande grito: “Mortus est...” Está morto!! O seu oficial superior então lhe entrega uma lança e diz:
--“Certifique-se!!”

Cassius olha novamente para Nossa Senhora, tremendo, quase desiste, mas o faz, insere a lança no corpo de Nosso Senhor. Então jorra sangue e água do Corpo de Jesus e Cassius caiu de joelhos, neste momento nasce para a fé...

Provavelmente ele já tinha ouvido falar de um tal profeta da Galiléia que fazia milagres, arrebanhava multidões de discípulos e que se dizia o Filho de Deus, e mesmo sendo pagão deve ter ficado admirado com isto tudo, ainda mais quando se viu ajudando a conduzir tal Galileu ao Calvário, ao ver sua Mãe Santíssima o acompanhando, quantas vezes deve ter se perguntado: “Quem é verdadeiramente Este Homem?” E neste momento, ao jorrar do sangue e da água sua pergunta tem resposta, e vinda de dentro, uma profissão de fé: “Verdadeiramente, este Homem era o Filho de Deus!” 



No fim vemos Cassius entre aqueles que ajudam a descer Nosso Senhor da Cruz e colocá-lo nos braços de sua Mãe, ali já o vemos como um discípulo, pois ser discípulo é retribuir o amor com o qual Deus nos ama, mesmo de que maneira infinitamente menor, nos arrependendo de nossos erros, com contrição, pois eles ferem Nosso Senhor, nos retificando e buscando dar o máximo de nossas forças por Deus a cada momento, e foi esta a ação de Cassius naquela hora, arrependido de suas ofensas fez o que podia e devia naquele momento, ele quis participar da Cruz, e assim devemos ser todos nós.

O que podemos perceber nesta reflexão é que sabemos que a conversão é um caminho para toda a vida, todos os dias, a luta pela conversão deve ser diária, mas há aqueles momentos especiais na vida onde Deus nos chama a passos maiores, toda conversão é um chamado divino que nós devemos responder, pois Deus quer a nossa felicidade, a felicidade neste mundo que é sofrer com paciência os revezes e esperar somente a Paz que vem de Nosso Senhor, e a felicidade eterna ao lado Dele na Glória, e Deus usa vários meios para isto, para nos chamar e levar-nos até Ele, e o mais belo, eficaz e santo é o caminho que passa por sua Mãe Santíssima, como dizia São Bernardo [3] “Ela é a Raptora de Corações”, toda conversão começa com Ela e tem o seu fim em Nosso Senhor, e foi o que vimos no desenrolar dessas cenas, o soldado que se admirou da magnanimidade de Nossa Senhora terminou professando a fé na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Este filme dispensa recomendações, mas aconselho depois desta leitura a assisti-lo novamente, e agora com um olhar mais atento a estes detalhes descritos acima, e vê-lo com o espírito de oração, e com certeza Nosso Senhor nos inspirará a que vejamos ainda mais belos detalhes neste filme.

Suplicamos a Nossa Mãe Santíssima, a Raptora de Corações, que sempre nos dê a força para perseverar em nossa vida de fé, na nossa conversão diária, que nos dê esperança no nosso caminhar, e principalmente um amor cada vez maior a Nosso Senhor Jesus.

Tiago Martins

Referências:

[1] Saiba mais sobre a história da Beata Anna Catarina Emmerich acessando estes links: “Anna Catharina Emmerich, que teve a vida unida a Jesus Eucaristia, beatificada.”

Relatos da Paixão por Beata Anna Catarina Emmerich


[2] Leia mais a respeito acessando este link: São Longuinho

[3] Citado por Dom Jean-Baptiste Chautard em “A Alma de Todo Apostolado”. Leia mais a respeito acessando este link: “O Apóstolo deve ter uma intensa devoção a Nossa Senhora.”

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O apóstolo deve possuir uma ardente devoção a Nossa Senhora


Retirado do livro “A Alma de Todo Apostolado”

Sendo membro da Ordem de Cister e filho de São Bernardo, não posso deixar de dizer que o santo Abade de Claraval atribuía a Maria todos os seus progressos na união com Jesus e todas as suas vitórias no apostolado.
Todos sabem o que foi o apostolado do mais ilustre dos filhos do patriarca São Bento, sobre os povos, os reis, os concílios, e até sobre o coração dos Papas. Todos exaltam a santidade, o gênio, a ciência e a unção dos escritos do último dos Padres da Igreja. Porém, o que, sobretudo, sintetiza a admiração dos séculos pelo santo doutor, é o título de “cantor de Maria”, que lhe foi outorgado.
Este incomparável apóstolo da Europa, não foi excedido por nenhum outro daqueles que celebraram as glórias da Mãe de Deus. Grandes santos, como São Bernardino de Sena, São Francisco de Sales, Santo Afonso de Ligório, São Luís de Montfort, e outros, não deixaram de ir beber os tesouros de São Bernardo, quando quiseram falar da Virgem Maria.
“Vejamos, meus irmãos —diz o santo doutor— quais os sentimentos de devoção, com que Deus quis que honrássemos Maria, Ele que pôs n’Ela toda a plenitude dos seus bens. Se, em nós, existe qualquer esperança, qualquer graça, qualquer penhor de salvação, reconheçamos que tudo isso jorra sobre nós d’Aquela que está cumulada de delícias (…) Tirai esse sol que alumia o mundo, e deixará de haver dia. Tirai Maria, essa estrela do mar, do nosso grande e imenso mar, e que fica senão profunda escuridão, sombras de morte e trevas espessas? É, pois, do fundo dos nossos corações e das nossas entranhas, e com os nossos melhores anseios que devemos honrar a Virgem Maria; pois tal é a vontade d’Aquele que quis que tudo tivéssemos por meio d’Ela”.[1]
Apoiados nesta doutrina, não hesitamos em dizer que, se a atividade do apóstolo não se fundar numa especialíssima devoção a Nossa Senhora, arrisca-se, seriamente, a construir sobre a areia.

a) Para a vida interior pessoal.
O apóstolo será insuficientemente devoto de Nossa Senhora, se não tiver confiança filial e amorosa na Mãe de Deus, ou se apenas for exterior o culto que lhe prestar. Para sermos seus verdadeiros filhos, o nosso amor deve corresponder ao dela; devemos estar firmemente convencidos das grandezas, privilégios e funções da Mãe de Deus e dos homens; devemos estar compenetrados de que a luta contra as faltas, a aquisição das virtudes, o reinado de Jesus Cristo nas almas, dependem do grau de devoção que tivermos a Maria; [2] devemos estar compenetrados de que a vida interior é mais segura, mais suave e mais rápida, quando se opera com Maria; [3] devemos transbordar de confiança filial e de amor pela Medianeira de todas as graças. [4] 
Todos estes sentimentos se encontravam em alto grau no coração do exemplar apóstolo que foi São Bernardo. Quem não conhece as palavras que brotaram da alma deste santo abade, quando, ao explicar aos seus monges o Evangelho Missus est, exclamou:
“Ó tu que compreendes que, no fluxo e refluxo deste mundo, flutuas entre ressacas e tempestades e não caminhas em terra firme, fixa os teus olhos sobre essa estrela, para não pereceres na tormenta. Se os ventos das tentações se desencadearem, se fores de encontro aos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria! Se te vires sacudido pelas ondas do orgulho, da ambição, da maledicência, da inveja; olha para a estrela, invoca Maria! Se a cólera, a avareza, ou a cobiça assaltarem a frágil barquinha da tua alma, ergue os olhos para Maria! Se, acabrunhado pela enormidade das tuas faltas, confundido pelas hediondas chagas da tua consciência, horrorizado pelo pavor do juízo, começares a ser absorvido pelos abismos da tristeza e do desespero, pensa em Maria! Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria! Jamais saia Maria dos teus lábios; jamais fique Maria longe do teu coração; e, para obteres o bom despacho das tuas preces, não olvides o exemplo da sua vida. Seguindo-a, não te desviarás; invocando-a, não desesperarás; contemplando-a, não errarás. Por ela amparado, nunca cairás; sob a sua proteção, nada te causará temor; guiado por ela, nunca te cansarás; se ela te for propícia, chegarás, certamente, ao bom porto.”
Não querendo alongar-me, mas desejando facultar aos apóstolos um resumo dos conselhos de São Bernardo, para quem quiser ser verdadeiro filho de Maria, aconselho-os, fraternalmente, a lerem com atenção o precioso livro: “La vie spirituelle, à l’école du Bienheureux Grignion de Montfort”, escrito pelo Padre Lhoumeau, superior geral dos Monfortinos.[5]
Esta obra sólida, do ponto de vista teológico, mas, ao mesmo tempo, prática e cheia de unção, reflete, maravilhosamente, o pensamento de São Bernardo. Nada lhe falta para alcançar os resultados tão desejados pelo abade de Claraval: afeiçoar o coração dos seus filhos à imagem do seu e dar-lhes o carácter dominante dos autores cistercienses: a necessidade do recurso habitual a Maria e a vida de união com ela.
Terminemos com as palavras consoladoras que a admirável cisterciense Santa Gertrudes ouviu dos lábios da Santíssima Virgem: “Não se diga que o meu dulcíssimo Jesus é meu Filho único, mas meu primogênito. Foi Ele quem eu concebi primeiro, no meu seio, mas, por Ele, concebi, depois, a todos vós para serdes seus irmãos e meus filhos, adotando no seio do meu amor maternal”.

b) Quanto à fecundidade do apostolado.
Como diz São Paulo, quando o apóstolo tira as almas do pecado e as faz crescer na virtude, está a gerar nelas o próprio Cristo. Por conseguinte, se Jesus Cristo veio ao mundo por meio da Santíssima Virgem, também é por meio dela que Ele deve ser gerado nas almas dos seus filhos.
Esquecer Maria no apostolado seria desconhecer uma parte essencial do plano divino. “Todos os predestinados —diz Santo Agostinho— estão neste mundo ocultos no seio da Santíssima Virgem, onde crescem, são guardados e alimentados por esta boa Mãe, até nascerem para a glória, depois da morte.”
“Após a Encarnação —conclui justamente São Bernardino de Sena— Maria adquiriu uma espécie de jurisdição sobre a missão temporal do Espírito Santo, de tal modo que as criaturas só recebem graças pelas mãos d’Ela”. Por sua vez, o verdadeiro devoto de Maria torna-se omnipotente sobre o Coração da sua Mãe. O seu apostolado é eficacíssimo, pois dispõe da omnipotência de Maria sobre o sangue infinitamente precioso do Redentor. Por isso, todos os grandes conquistadores de almas têm extraordinária devoção à Santíssima Virgem. A força com que conseguem persuadir as almas a abandonar o pecado, e a abraçarem a virtude, vem-lhes do horror ao mal e o amor à pureza daquela que a si mesma se chamou Imaculada Conceição.
Ao ouvir a dulcíssima voz de Maria, São João Baptista reconheceu a presença de Jesus, e exultou de alegria no seio de Santa Isabel. Os verdadeiros filhos de Nossa Senhora sabem, também, encontrar as palavras capazes de tocarem os corações mais empedernidos e abri-los para Jesus; sabem encontrar, com o auxílio da Mãe de Misericórdia, a palavra que salva do desespero e abre as almas para as vias da confiança; sabem colocar os pecadores nas mãos daquela que é o seu Refúgio seguro e a sua verdadeira Mãe.
São João Baptista Vianney encontrou, por vezes, pecadores que se escudavam em práticas exteriores de devoção à Santíssima Virgem, para calarem a própria consciência, pecarem mais facilmente e não temerem a justiça de Deus. A palavra incisiva do santo pároco de Ars revelava-lhes, contudo, a injúria que estavam a fazer à Mãe de Misericórdia, e levava-os a servirem-se dessas mesmas práticas de devoção para implorarem e, assim, obterem a graça da conversão.
Em caso igual, um apóstolo pouco devoto de Maria, poderia facilmente levar o pobre náufrago a abandonar tais práticas que talvez fossem a sua única tábua de salvação.
Se Maria viver no coração do apóstolo, ele conseguirá ter a eloquência maternal que toque as almas mais duras. Dir-se-ia que, por uma delicadeza admirável, Nosso Senhor reserva para a sua Mãe as conquistas mais difíceis e só as concede aos verdadeiros devotos de Maria. O verdadeiro filho de Nossa Senhora nunca carecerá de argumentos, meios e expedientes, quando haja de animar os fracos e consolar os inconsoláveis.
O decreto pontifício que acrescentou à Ladainha Lauretana a invocação: “Mãe do bom conselho”, funda-se nos títulos de “Tesoureira das graças celestes” e “Consoladora universal” que Maria merece.
É aos seus verdadeiros devotos que a “Mãe do bom conselho” faculta, como em Caná, o segredo de obterem, para distribuir, o vinho da força e da alegria. Mas, sobretudo, quando é preciso falar do amor de Deus às almas, é que a “Raptora dos corações”, Raptrix cordium, conforme expressão de São Bernardo, a Esposa do Amor substancial, põe nos lábios dos seus filhos as palavras de fogo que ateiam o amor de Jesus e, por meio desse amor, fazem germinar todas as virtudes.
O verdadeiro apóstolo deve amar, apaixonadamente, aquela a quem Pio IV chamou Virgo sacerdos, cuja dignidade ultrapassa a de todos os sacerdotes e pontífices. E este amor dar-lhe-á o direito de nunca considerar perdida uma obra, se a começou com Maria e se com Ela a quer consolidar. Maria, com efeito, está na base e no topo de tudo quanto interessa ao Reino de Cristo.
Mas trabalhar com Ela não é, apenas, erguer-lhe altares ou entoar cânticos em sua honra. O que Ela quer, verdadeiramente, é que vivamos unidos a Ela, que as nossas afeições passem pelo seu Coração e que recorramos ao seu conselho e auxílio. Sobretudo, espera de nós a imitação das suas virtudes e a entrega total nas suas mãos, para que nos possa revestir do seu divino Filho.
Se recorrermos habitualmente a Maria, imitaremos aquele general do Povo de Deus que, antes de avançar contra o inimigo, dizia a Débora: “Se fores comigo, eu irei; mas, se não fores, não irei” (Jz 4, 8), e faremos, então, verdadeiramente, todas as nossas obras com Ela. E Ela entrará, não só nas decisões principais, mas também em todos os casos imprevistos e em todos os pormenores da execução da obra.
Unidos àquela, cuja invocação de Nossa Senhora do Sagrado Coração, resume, em nossa opinião, todos os outros títulos, não correremos o risco de desvirtuar as obras, permitindo que elas prejudiquem a vida interior e se tornem um perigo para as nossas almas. Pelo contrário, por meio dessas mesmas obras, progrediremos na vida interior, em união com aquela que nos assegura a posse do seu divino Filho durante toda a eternidade.

Epílogo

Depomos este modesto trabalho aos pés de Maria Imaculada.
O perfeito ideal do apostolado é o Coração da Santíssima Virgem, tal como aparece na gravura bizantina, do século VI, reproduzida neste livro. [6] 
Parece-nos a própria imagem da vida interior. A Virgem tem no peito o Verbo Encarnado. Como o Pai Eterno, conserva sempre em si o Verbo que deu ao mundo. Jesus vive n’Ela.
O Menino Jesus aparece, porém, dentro do seu Coração no ato de exercer o seu apostolado. O seu porte, o rolo do Evangelho que tem na mão esquerda, o gesto da mão direita, o seu olhar: tudo indica que está a ensinar. E a Virgem une-se à sua palavra. A expressão do seu rosto parece dizer que quer também falar. Os seus olhos grandes abertos procuram almas às quais possa comunicar o seu Filho: imagem perfeita da vida ativa, pela pregação e pelo ensino.
As suas mãos estendidas — como as dos orantes das catacumbas, ou as do sacerdote que oferece a Vítima santa sobre o altar— recordam-nos que é, sobretudo, pela oração e pela união ao sacrifício de Jesus que a nossa vida interior será profunda e o nosso apostolado dará fruto.
Ela vive da vida de Jesus, do seu amor, do seu sacrifício, e Jesus fala nela e por ela. Jesus é a sua vida e ela é o porta-voz, a custódia de Jesus. Assim deve ser a alma dedicada ao apostolado, deve viver de Deus, para poder falar eficazmente d’Ele, já que a vida ativa é apenas a vida interior a transbordar da alma.
Rainha dos Apóstolos
Salve, Virgem Mãe, receptáculo vivo do Coração de Jesus! Desta divina fonte haurimos, por vosso intermédio, o espírito de sacrifício e de oração.

Retirado do livro "A Alma de Todo Apostolado" , 
de Dom Jean-Baptiste Chautard, pg. 173 à 184 - Editora Civilização.


Recomendamos muitíssimo a leitura deste livro, recomendado por tantos, como por exemplo o Santo Padre Pio X o tinha como livro de cabeceira.

Palavras de São Pio X, durante a visita ad limina dos bispos do Canadá em 1914:

"Se quereis que Deus abençõe e torne fecundo o vosso apostolado, empreendido para a sua glória, impregnai-vos bem do espírito de Jesus Cristo, procurando adquirir uma intensa vida interior. Para este fim, nao vos posso indicar melhor guia do que "A alma de todo o apostolado" de Dom Chautard, abade cisterciense. Recomendo-vos, calorosamente, esta obra, que estimo particularmente, e da qual fiz o meu próprio livro de cabeceira".

Como adquiri-lo? Clique nos links abaixo:
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Referências:
[1] São Bernardo, Serm. in Nat. B. M. V. alias de Aquaeductu.
[2]“Ninguém recebe o dom de Deus senão por vós, ó cheia de graça” (São Germano). “A santidade cresce, em razão da devoção que se professa a Maria” (Padre Faber).
[3] “Com Maria, fazem-se mais progressos no amor de Jesus num só mês, do que em vários anos vivendo-se menos unidos a esta boa Mãe” (São Luís de Montfort).
[4] “Meus filhos, ela é a base da minha confiança e a razão da minha esperança” (São Bernardo).
[5] Livraria Oudin, Paris.

[6] A imagem que aqui reproduzimos representa a “Panaghia Parthenos”, uma das mais célebres e antigas imagens da Mãe de Deus. O original, dádiva da imperatriz Pulquéria (450-453), encontrava-se numa das mais belas e ricas igrejas de Constantinopla, e ainda aí se conservava nos fins do século XIV. Encontram-se, com bastante frequência, reproduções desta célebre pintura na Rússia, por exemplo em Kiev, Novgorod e Moscovo, bem como na Grécia.
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